Capítulo · Enciclopédia dos Biomas Brasileiros · BERA

Pulso de Inundação
e Incêndio de 2020

A maior área úmida tropical do planeta funciona pelo pulso das cheias.
Em 2020, o fogo destruiu 30% da cobertura vegetal do bioma.

150k km²no Brasil
≈85%cobertura original ainda intacta
10Mjacarés — maior população do mundo
30%queimado no incêndio de 2020
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I · O Pulso

O ecossistema regulado
pelo pulso de inundação

O Pantanal é um ecossistema regulado pelo ciclo de inundação e vazante. Esse ciclo determina a distribuição da fauna, o comportamento das plantas, a migração dos peixes e a nidificação das aves.

A planície pantaneira ocupa cerca de 150.000 quilômetros quadrados no Brasil, distribuídos pelos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com extensões no Paraguai e na Bolívia que somam mais de 200.000 quilômetros quadrados ao todo. É a maior área úmida tropical do planeta. Seu terreno é plano: uma diferença de altitude de apenas alguns metros separa as áreas que ficam permanentemente secas das que ficam submersas por meses a cada ano.

O mecanismo que governa o ecossistema é o pulso de inundação. Entre novembro e março, as chuvas das cabeceiras do Pantanal — nas chapadas do Mato Grosso e da Bolívia — derramam volumes imensos de água sobre a planície. Os rios Paraguai, Cuiabá, Taquari e dezenas de tributários transbordam, inundando campos, matas de galeria e baías num avanço que pode durar semanas. No pico da cheia, até 80% da planície está submersa. Entre abril e outubro, a água recua — a vazante — revelando campos abertos onde a fauna se concentra em torno dos lagos residuais.

Esse pulso é o fundamento do ecossistema. As espécies do Pantanal evoluíram em torno desse ritmo. Os peixes sobem para os campos inundados para se alimentar e desovar. As aves migratórias chegam com a vazante para nidificar às margens dos lagos que se formam. O jacaré aproveita a concentração de peixes na estiagem para acumular as reservas que precisará na cheia seguinte. O capivara, a lontra, a ariranha — cada espécie tem seu calendário calibrado ao pulso.

200k+km² totais (Brasil, Bolívia, Paraguai)
80%da planície submersa no pico das cheias
Nov–Marperíodo de cheia / inundação
Abr–Outperíodo de vazante / concentração de fauna
II · A Fauna

A maior densidade de fauna
do Brasil

O Pantanal tem a maior concentração de fauna silvestre do Brasil. A combinação de baixa densidade humana, grandes propriedades rurais com pecuária extensiva e a inundabilidade da planície preservou densidades animais que não existem em nenhum outro bioma brasileiro.

A estatística mais citada sobre o Pantanal é a dos jacarés: estima-se que a planície abriga cerca de 10 milhões de jacarés-do-pantanal — a maior população de crocodilianos do mundo. Em todas as outras regiões do Brasil, a pressão de caça, desmatamento e fragmentação reduziu as populações de grandes vertebrados a frações do que eram. No Pantanal, a combinação de baixa densidade humana, grandes propriedades rurais com pecuária extensiva e a própria inundabilidade da planície — que dificulta o acesso e a agricultura — preservou densidades animais que não existem em nenhum outro bioma brasileiro.

A onça-pintada encontrou no Pantanal seu último refúgio de grande escala no Brasil. A planície abriga a maior população contígua de onças-pintadas das Américas — estimada em mais de 4.000 indivíduos numa área que ainda permite deslocamentos de dezenas de quilômetros sem cruzar uma estrada ou uma cerca. Para uma espécie que precisa de território de 25 a 150 quilômetros quadrados por indivíduo, o Pantanal é insubstituível.

Tuiuiús, capivaras, lontras, ariranhas, tamanduás-bandeira, antas, lobos-guará, cervo-do-pantanal — cada uma dessas espécies existe no Pantanal em números que evocam o que a Mata Atlântica e o Cerrado já foram antes da ocupação intensa.

10Mjacarés — maior população de crocodilianos do mundo
4.000+onças-pintadas — maior população contígua das Américas
650+espécies de aves
260+espécies de peixes
III · Maria Tereza

Maria Tereza Jorge Pádua
e a criação do sistema de unidades de conservação

A conservação do Pantanal aconteceu porque, décadas antes de o bioma se tornar um símbolo internacional, algumas pessoas decidiram documentar e proteger o bioma antes que a destruição tornasse as duas coisas irrelevantes.

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Maria Tereza Jorge Pádua
Bióloga e conservacionista · Fundadora do sistema brasileiro de unidades de conservação

Maria Tereza Jorge Pádua é uma das figuras mais importantes da história ambiental brasileira. Trabalhou por décadas no IBDF, o antecessor do IBAMA, e foi responsável pela criação e consolidação de dezenas de unidades de conservação no Brasil, incluindo parques nacionais no Pantanal, na Amazônia e no Cerrado.

Seu método era rigoroso e pragmático: identificar as áreas de maior valor biológico, mapear as pressões sobre elas, e criar a proteção legal antes que as pressões se tornassem irreversíveis. Em uma época em que o governo brasileiro priorizava a abertura de fronteiras agrícolas e a integração de territórios, ela operava dentro do sistema para criar ilhas de proteção que sobreviveriam a vários governos.

No Pantanal, seu trabalho resultou na criação do Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense em 1981 — uma área de 135.000 hectares que se tornou a âncora de proteção do bioma e, mais tarde, parte do complexo que levou ao reconhecimento da Reserva da Biosfera do Pantanal pela UNESCO. Jorge Pádua foi também uma das autoras do sistema brasileiro de categorias de unidades de conservação, que estrutura até hoje a proteção de ecossistemas em todo o país.

1970s Pressão da pecuária intensifica. A modernização da pecuária pantaneira, com introdução de espécies forrageiras exóticas e drenagem de campos naturais, começa a alterar a hidrologia local em diversas sub-regiões.
1981 Parque Nacional do Pantanal criado. A pressão científica e conservacionista resulta na criação do primeiro parque nacional do bioma. Maria Tereza Jorge Pádua é uma das principais articuladoras do processo.
2000 UNESCO reconhece o Pantanal. O bioma é declarado Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera. O reconhecimento internacional fortalece os argumentos para sua proteção.
2019 Seca histórica prepara o terreno. Uma das secas mais intensas em décadas reduz drasticamente os níveis do rio Paraguai e resseca campos que normalmente ficam úmidos. A biomassa seca acumula-se sobre a planície.
2020 O grande incêndio. Combinação de seca, calor e focos de incêndio resulta no maior evento de queimadas do Pantanal registrado. Mais de 4,4 milhões de hectares — cerca de 30% do bioma brasileiro — são queimados em um único ano.
2021–hoje Recuperação lenta e desigual. Partes do Pantanal começam a se recuperar. Mas áreas com incêndios recorrentes, solos compactados e vegetação exótica invasora mostram sinais de degradação persistente que a simples ausência de fogo não resolve.
IV · O Fogo

O incêndio de 2020:
30% do bioma queimado

Queimadas naturais fazem parte da história do bioma. O que aconteceu em 2020 foi diferente em escala, intensidade e nas condições que o tornaram possível.

O incêndio de 2020 no Pantanal foi o resultado de uma convergência de fatores. A seca de 2019 e 2020 foi uma das mais intensas da série histórica: o rio Paraguai atingiu níveis mínimos recordes em vários pontos, campos que normalmente ficavam úmidos durante boa parte do ano secaram completamente, e a biomassa vegetal ressequida acumulou-se em volumes excepcionais.

Quando os focos de incêndio começaram — muitos deles originados em queimadas para limpeza de pasto nas fazendas do entorno — o material combustível disponível era extraordinário, e as condições climáticas, com ventos secos e temperatura elevada, facilitaram a propagação. Entre janeiro e outubro de 2020, o INPE registrou mais de 22.000 focos de incêndio no Pantanal. A área queimada superou 4,4 milhões de hectares — cerca de 30% de todo o bioma brasileiro em um único ano. Em anos normais o Pantanal registra entre 200.000 e 500.000 hectares queimados.

⚠ Dados · INPE / MapBiomas / WWF-Brasil

O incêndio de 2020 matou centenas de milhares de animais diretamente — estimativas de organizações conservacionistas falam em mais de 17 milhões de animais vertebrados mortos ou deslocados só nos primeiros meses. Jacarés, capivaras, aves nidificantes e peixes em lagos que secaram foram os mais afetados. Além da mortalidade direta, o incêndio destruiu habitats de nidificação, comprometeu a cobertura vegetal que protege os solos da erosão e introduziu espécies de gramíneas exóticas que, ao colonizar as áreas queimadas, aumentam o risco de incêndios futuros num ciclo de retroalimentação.

A recuperação é real, mas não é uniforme. O Pantanal tem capacidade de regeneração em áreas onde o solo preservou sua estrutura e onde a cobertura vegetal nativa consegue rebrotar antes que as espécies exóticas se estabeleçam. Populações de jacarés e capivaras mostraram recuperação rápida nas áreas que escaparam dos incêndios mais intensos. Mas áreas que sofreram queimadas repetidas nos anos anteriores a 2020, ou onde gramíneas africanas como o braquiária já dominavam, mostram trajetórias de degradação que o simples retorno das chuvas não reverte.

O incêndio de 2020 mostrou que o Pantanal não é invulnerável. Sua preservação relativa em comparação com outros biomas brasileiros não é resultado de proteção ativa — é resultado de condições geográficas e econômicas que historicamente dificultaram sua conversão. Essas condições estão mudando. A expansão da soja e da cana para as bordas da planície, a intensificação da pecuária, o aumento da frequência de secas associado à mudança climática e a desmobilização da fiscalização ambiental formam um conjunto de pressões que o bioma mais intacto do Brasil ainda precisa aprender a resistir.

A onça-pintada ainda existe aqui em números que não existem em nenhum outro lugar do Brasil. O tuiuiú ainda nidifica às margens dos lagos da vazante. O jacaré ainda domina os rios em densidades que fazem o Pantanal parecer um documentário. Isso não é permanente — é frágil, contingente, dependente de decisões que serão tomadas nos próximos anos sobre como tratar a planície, o fogo, o gado e a água.

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