Em janeiro de 1985, enquanto o Rock in Rio reunia 250 mil pessoas em todo o festival, com picos de 80 mil a 100 mil pessoas na Barra da Tijuca, o Brasil vivia uma de suas semanas mais estranhas: o Colégio Eleitoral havia acabado de eleger Tancredo Neves presidente, encerrando vinte e um anos de ditadura militar. O Rock in Rio, porém, havia sido planejado e confirmado ainda sob o regime. O festival aconteceu nesse limiar exato, com um pé na ditadura que acabava e outro numa democracia que ainda não tinha forma definida. Era o lugar certo para o rock brasileiro existir: na fresta, quando as regras antigas ainda valiam e as novas ainda não tinham nome.
O que os anos 1985 a 1994 produziram musicalmente no Brasil é único na história do país. Três movimentos radicalmente distintos florescendo ao mesmo tempo, quase sem se tocar, cada um com sua estética, sua classe, sua raça, sua geografia. O rock — chamado de BRock pela imprensa — era predominantemente branco e de classe média, tocava nas rádios FM e enchia ginásios. O pagode vinha dos quintais da Zona Norte do Rio, era negro e suburbano, tocado com banjo de quatro cordas e pandeiro; a imprensa demorou anos para levá-lo a sério. O rap crescia nas periferias de São Paulo com uma urgência que o mercado fonográfico não sabia como processar e preferiu ignorar por uma década inteira.
O Brasil dos anos 1980 aprendia a falar em liberdade com três vozes ao mesmo tempo, em registros que raramente se cruzavam. Esta é a história dessas três vozes e dos que tornaram cada uma delas possível sem jamais receber o nome que mereciam.
I. O BRock — quando a classe média branca aprendeu a gritar
A história do rock brasileiro costuma começar em 1982, com o lançamento do primeiro disco dos Paralamas do Sucesso e com a cena que se formava no Circo Voador, no Rio. Essa data é arbitrária, como toda data na história cultural. O que aconteceu em 1982 foi a consolidação de algo que havia sido construído ao longo de anos nas garagens e salas de ensaio de jovens de classe média que cresceram ouvindo rock anglofônico e queriam uma versão brasileira: direta, com letra em português e raiva genuína na voz.
Renato Russo ensaiava a Legião Urbana em Brasília desde 1978, primeiro como Aborto Elétrico, depois como Legião. A escolha de Brasília não é acidente geográfico. É dado cultural central. Brasília era a cidade mais jovem do Brasil, construída do zero por decreto, sem tradição musical própria, sem o peso do samba carioca ou do baião nordestino. Era o lugar perfeito para um rock que não precisava se justificar em relação a nada que existia antes. Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá criaram ali uma estética que misturava pós-punk britânico, poesia romântica tardia e uma honestidade emocional que a MPB sofisticada havia evitado por considerar excessiva.
O disco de estreia da Legião Urbana saiu em 1985, o mesmo ano do Rock in Rio, o mesmo da abertura democrática. O timing era perfeito não por cálculo, mas por coincidência histórica: o país que saía da ditadura queria músicas que dissessem diretamente o que sentia, sem metáfora obrigatória, sem duplo sentido por necessidade de sobrevivência. "Geração Coca-Cola" e "Será" eram canções que um jovem de dezoito anos cantava no ônibus sem precisar decodificar nada. Após vinte e um anos de canção alegórica, isso era uma forma de liberdade que parecia óbvia. Não era.
O rock brasileiro dos anos 1980 nasceu da exaustão da metáfora obrigatória. Quando a ditadura acabou, havia uma geração inteira de jovens que queria falar direto. Renato Russo entendeu isso antes de qualquer outro compositor do período. E pagou o preço de ser mal compreendido por todos os lados ao mesmo tempo.
Cazuza — a voz que queimou em dois atos
Agenor de Miranda Araújo Neto, Cazuza, foi a figura mais contraditória e mais intensa do rock brasileiro dos anos 1980. Filho de João Araújo, poderoso executivo da Som Livre, nasceu com acesso ao mercado que a maioria dos músicos de sua geração jamais teria. Transformou esse acesso numa carreira de honestidade radical que o mercado achava perigosa e o público adorava exatamente por isso.
Com os Barão Vermelho, Cazuza criou um rock de guitarras duras e letras melodramáticas que deviam mais ao romantismo exaltado de um Carlos Drummond de Andrade jovem do que ao punk anglofônico que parte da cena brasileira imitava. "Pro Dia Nascer Feliz" (1983) era uma canção sobre a impotência de uma geração que havia crescido sob a ditadura e chegado à democracia sem saber muito bem o que fazer com ela. Em 1985 saiu do Barão e seguiu carreira solo; o primeiro disco, simplesmente "Cazuza", mostrava um compositor que havia aprendido a fazer canção popular sem abrir mão de nada.
Em 1989, Cazuza revelou publicamente que era soropositivo para o HIV, num país que ainda tratava a Aids como assunto a ser evitado. Continuou compondo e se apresentando enquanto adoecia. Os últimos dois anos de sua vida tornaram-se obra em si mesmos. "Ideologia" (1988) e "O Tempo Não Para" (1988) carregam o peso de alguém que sabe que o relógio está correndo e escolheu não disfarçar isso. Morreu em julho de 1990, aos trinta e dois anos.
Invisibilizado · Letrista e parceiro
Frejat (Roberto Frejat) — a mão que escreveu metade do que Cazuza cantou
Roberto Frejat compôs, ao lado de Cazuza, algumas das
músicas mais conhecidas do Barão Vermelho e da fase inicial da carreira solo.
"Pro Dia Nascer Feliz", "Maior Abandonado", "Bete Balanço": todas com participação
decisiva de Frejat na composição musical e, em vários casos, também na letra.
O padrão é conhecido na história da música brasileira: um nome ocupa o centro
da atenção enquanto o outro constrói a arquitetura que torna tudo possível.
Frejat continuou com o Barão após a saída de Cazuza e seguiu carreira solo,
com discos sólidos e reconhecimento de público. A narrativa cultural, porém,
fixou Cazuza como gênio singular e Frejat como músico de apoio: uma simplificação
que apaga o quanto da obra que o Brasil ama foi construída a quatro mãos.
A intensidade biográfica de Cazuza — a vida queimada, o diagnóstico público,
a morte jovem — criou uma aura que torna difícil ver além dela. O ícone apagou
o parceiro. Não por malícia: pela mecânica habitual da narrativa cultural
brasileira, que prefere heróis individuais a processos coletivos.
Os Titãs — o rock que não queria ser bem comportado
Enquanto a Legião Urbana era poética e o Barão era intenso, os Titãs eram outra coisa: barulhentos, irônicos, politicamente explícitos de um modo que o rock brasileiro raramente havia sido. "Polícia" (1985), "Comida" (1987), "Diversão" (1988) — cada canção era um manifesto comprimido em dois ou três minutos. Sem metáfora desnecessária, sem alegoria de sobrevivência. Dizia o que queria dizer.
A formação dos Titãs era incomum para uma banda de rock: nove integrantes em determinados momentos, todos capazes de cantar, todos com voz criativa no processo. Arnaldo Antunes, Branco Mello, Sérgio Britto, Tony Bellotto, Nando Reis: compositores individuais que funcionavam coletivamente numa dinâmica que a indústria fonográfica não sabia catalogar. O resultado era um som que não podia ser reduzido a um nome, a uma voz, a um rosto de pôster. Para o mercado, isso era problema. Para a música, era uma virtude rara.
Análise · Composição coletiva
"Comida" — uma canção escrita por quem tinha fome de tudo
"Comida", composta por Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto para o álbum "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" (1987), começa como lista de desejos materiais e vai acumulando abstrações até chegar em "a gente não quer só comida / a gente quer comida, diversão e arte". Materialismo dialético disfarçado de refrão. Brecht em três acordes. O que faz dela uma façanha poética é outra coisa: qualquer pessoa podia cantá-la sem perceber exatamente o que estava cantando.
O crédito triplo na composição era raro, e os Titãs faziam disso questão de princípio. Como era um gesto incomum, passou despercebido como o gesto político que era.
II. O BRock e suas fronteiras — o que ficou de fora do ginásio
A narrativa do BRock tem um centro bem iluminado — Legião, Barão, Titãs, Paralamas, RPM — e uma periferia que raramente aparece nas retrospectivas de dezembro. É nessa periferia que algumas das músicas mais interessantes do período foram feitas.
Invisibilizado · Voz que veio do Norte
Zé Ramalho e a geração que o rock apagou
Zé Ramalho não é exatamente um invisibilizado — tem
discos conhecidos, uma carreira consolidada. Mas sua trajetória nos anos 1980
é o exemplo mais claro de como o BRock reorganizou a hierarquia da música popular
brasileira, deixando para trás uma geração inteira de compositores nordestinos
que haviam chegado ao Rio e a São Paulo no final dos anos 1970 com uma proposta
radical: fundir rock progressivo com xote, com baião, com as tradições do Nordeste profundo.
Zé Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo
haviam feito, entre 1978 e 1982, alguns dos discos mais inventivos da música
brasileira do período. Quando o BRock explodiu, o mercado e a imprensa
voltaram todos os holofotes para o rock de guitarras em português, deixando
na sombra uma geração que havia criado uma síntese nordestino-universal
que não cabia em nenhuma categoria pronta.
A ironia é que esse Nordeste alimentou gerações posteriores. A música de
Zé Ramalho está em samples de rap, em arranjos de artistas contemporâneos,
em playlists de streaming que seus ouvintes nem sempre sabem situar
historicamente. O repertório sobrevive; o contexto foi apagado.
Invisibilizado · Pioneira do rock feminino
Léa Freire e as mulheres que o BRock não queria ver
O rock brasileiro dos anos 1980 tinha um problema estrutural que raramente
aparece nas histórias oficiais: era quase inteiramente masculino. As bandas
com maior visibilidade — Legião, Barão, Titãs, Paralamas, RPM — eram formadas
exclusivamente por homens. As mulheres que existiam na cena geralmente
ocupavam papéis de backing vocal ou de artistas solo que precisavam negociar
com um mercado que as queria cantoras, não instrumentistas nem compositoras.
Léa Freire, saxofonista, flautista e compositora, foi
uma das primeiras mulheres a circular pelos mesmos circuitos em que o rock
e a música instrumental brasileira dos anos 1980 se consolidavam, com
autonomia técnica e criativa plena. Sua trajetória cruzava jazz, MPB e
música instrumental de formas que o mercado não sabia empacotar, razão pela
qual foi pouco documentada. O caso de Léa Freire é sintomático de algo maior:
a cena do BRock era tão masculina que as exceções raramente foram registradas
como exceções. Simplesmente sumiam do mapa.
Cássia Eller chegaria alguns anos depois, no final dos 1980
e começo dos 1990, para ocupar um lugar de centralidade no rock brasileiro
com uma força que poucas mulheres haviam alcançado até então. Chegou tarde
demais para receber o crédito de pioneira e cedo demais para que o mercado
soubesse o que fazer com ela. Morreu em 2001, aos quarenta anos, antes de
ver o que veio depois.