Povo do cerrado goiano — resistência nas veredas entre o planalto e o Araguaia
Os Tubiba-Tapuia habitam o cerrado goiano, numa região de transição entre o planalto central e as veredas que alimentam os afluentes do Rio Araguaia. Descendentes dos povos Tapuia de Goiás — grupos Macro-Jê que habitaram o planalto central antes da chegada das bandeiras paulistas no século XVII —, carregam o nome que os colonizadores deram a todos os não-Tupi do interior como herança ressignificada.
A história dos Tapuia de Goiás é inseparável da história das bandeiras e das expedições de escravização que varreram o planalto central no século XVII. Grupos inteiros foram capturados para trabalhar nas fazendas do litoral ou eliminados quando resistiam. Os que sobreviveram nas serras e veredas do interior goiano são os ancestrais dos Tubiba-Tapuia.
Com cerca de 400 pessoas, os Tubiba-Tapuia emergem no mapa dos povos indígenas brasileiros a partir dos anos 2000, articulando memória familiar, Toré adaptado ao cerrado goiano e pesquisa histórica nos arquivos das antigas missões. A luta pela demarcação de território no cerrado goiano enfrenta a pressão do agronegócio, que transformou mais de 50% do bioma em pastagens e monoculturas nas últimas décadas.
O cerrado nos alimentou quando ninguém mais queria nos ver. Quando a soja chegou, ela não viu povo — viu terra vazia. Mas o cerrado nunca foi vazio. Nós sempre estivemos aqui.
— Tradição oral Tubiba-Tapuia, adaptação BERACom 50% do cerrado já destruído pelo agronegócio, os Tubiba-Tapuia constroem resistência sendo presença ativa no bioma que o Brasil trata como descartável. Defender o cerrado é defender o povo.
O cerrado é o bioma mais ameaçado do Brasil — mais de 50% já destruído. Os Tubiba-Tapuia são guardiões de uma das últimas áreas de cerrado goiano intacto, defendendo um bioma que o Estado brasileiro insiste em tratar como vazio e disponível para o agronegócio.
A luta pela demarcação territorial no cerrado goiano enfrenta uma das pressões mais intensas do Brasil: soja, eucalipto e pecuária avançam sobre o planalto central com velocidade que os processos administrativos da FUNAI não conseguem acompanhar.
A escola indígena diferenciada dos Tubiba-Tapuia integra o conhecimento do cerrado — plantas, animais, ciclos das veredas — ao currículo formal. Cada criança que aprende a ler o cerrado é uma guardiã do bioma.
O manejo tradicional do fogo — queimas controladas na época certa — é reconhecido por pesquisadores do IBAMA como a técnica mais eficaz de gestão do cerrado. Os Tubiba-Tapuia praticam esse manejo há séculos e ensinam às novas gerações.
O cerrado brasileiro é o savana mais rico em biodiversidade do mundo — com mais de 12.000 espécies de plantas, 935 espécies de aves e 300 espécies de mamíferos. É também o bioma que o Brasil mais destruiu: mais de 50% da cobertura original foi convertida em pastagem, soja e cana desde os anos 1960. Os Tubiba-Tapuia são guardiões de um fragmento desse patrimônio que a modernização brasileira tratou como obstáculo.
O pequizeiro (Caryocar brasiliense) é uma das espécies mais antigas do cerrado — suas raízes podem alcançar 15 metros de profundidade para acessar o lençol freático. A planta é símbolo cultural do Centro-Oeste e alimento sagrado dos Tubiba-Tapuia: na temporada do pequi (novembro-fevereiro), toda a comunidade vai ao cerrado colher. É ritual e celebração ao mesmo tempo.
As veredas do cerrado — as linhas de buritis que marcam os cursos d'água — são os ecossistemas mais frágeis do bioma. Quando o agronegócio ocupa as cabeceiras das bacias, as veredas secam. Os Tubiba-Tapuia monitoram o estado das veredas do seu território como outros monitoram dados de saúde: é indicador de vitalidade do ecossistema e da comunidade.
O manejo do fogo no cerrado é uma técnica de manutenção da biodiversidade que as bandeiras e fazendeiros do século XVIII proibiram por não entender. Sem queimas periódicas, o cerrado se fecha em mata babaçu e perde as espécies que dependem de espaços abertos. Os Tubiba-Tapuia mantiveram essa técnica mesmo sob proibição — e hoje ela é reconhecida pela ciência como indispensável.
Esta enciclopédia é um projeto de preservação cultural e pedagógica da BERA — BDV Produções.
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